Sem um pouco de silêncio as palavras não brotam, não crescem, não amadurerem como deveriam. Silêncio não é só tempo de espera, é tempo de chuva seguida de sol, vento, sombras, rio, riso, medo e amor. Silêncio é deixar o quintal como está, cheio de folhas, secas ou não, é não se levantar pra limpar. Se Deus se esconde no silêncio, se ele é o silêncio por trás das vozes, porque não deveríamos também calar? Ser imagem e semelhanca de Deus é antes de tudo calar, e aprender a ouvir coisas que não tem voz e som. Coisas surdas, mudas, até cegas, e coisas que têm olhos também. É preciso calar pro som sair melhor. O nosso som. Doce, rouco, agudo, intenso. O nosso som é aquilo que somos, e o que somos está entre o que não somos e o que o outro é. Silenciar é ouvir uma voz sob todas as vozes. A voz de Deus que se dissolve na densidade do vento que derruba folhas no quintal. Ouvir um galo cantar dentro de si anunciando os dias de molduras antigas. Ouvir a imagem dos que já foram e dos que são – dentro de si. Um silêncio precede o Haja Luz e no sétimo dia Deus se calou. Se calou pra ouvir a chuva pingando no jardim. Naquele jardim que era um quintal. Quintal: o dia que já foi e que já vem. Tudo sempre começa e termina num quintal. Tudo sempre começa e termina num sem-som. Sem isso as palavras seriam desperdício e queimariam em vão. Quem planta boas palavras colhe flores, árvores risonhas num quintal. Quem semeia silêncio colhe pedaços daquela Palavra Eterna que ecoa em todos séculos. O doce sacramento que se mescla com o gosto amargo das ervas amargas da vida, e que faz faz brotar um rio pequeno, um igarapé, de sutilezas. Coisas boas. Sentimentos bons, mesmo quando a chuva é grossa a janela sempre fica aberta pro quintal.

Por: Éverton Vidal.

Ctr+c, Ctrl+v do excelente blog do autor: RENOVIDADE

PS.: Poemas dessa profundidade e beleza, merecem a proposta do autor: Silêncio.

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