Com o passar do tempo a internet tornou-se um ótimo lugar para troca de conhecimento e experiências – não há dúvida de que os blogs têm cumprido este papel de maneira eficaz.
Quando iniciamos o Celebrai!, jamais passou pela nossa cabeça a quantidade de pessoas que “desaguam-se” na blogosfera; não tínhamos ideia de quantos parceiros faríamos.
Um dos maiores comentaristas desta casa, chama-se Éverton Vidal. Pelo número de comentários e pelos sentimentos deixados em alguns comentários, concluímos que ele é um viciado neste blog – a recíproca é verdadeira, seu blog é viciante também.
Vidal é pensador, poeta, cronista, enfim, um cristão diferenciado; estudante de medicina, fascinado em pensar, logo, não muito querido da religião.
Nessa entrevista concedida ao Celebrai!, Vidal revela-se um cara de uma alma invejável. Um jovem diferenciado ante a juventude alienada destes tempos pós-modernos.
Esta é uma boa oportunidade para que nossos leitores conheçam – se já não o conhecem – este companheirásso (permitam-me um neologismo, se é que já esta palavra não existe) do Celebrai!

1º Quem é Éverton Vidal?

Vidal: Eu sou apenas um rapaz latino-americano brasileiro acreano de Brasiléia e amazonense por adoção. Estudante de medicina e amante de música e poeta em construção. Simples e tranqüilo, quase-hippie, sentimental, às vezes impulsivo. Cristão católico protestante evangélico carismático progressista liberal conservador, que acha fascinante a religiosidade, gosta de estatuetas e ícones e liturgia e vida religiosa contemplativa. Ecumênico, tolerante com aquilo que se pode tolerar. Falador que às vezes se cala. Peregrino, levemente distante, reflexivo, discretamente feliz, fã de Belchior e Hermeto, Cecília e Adélia, Kierkegaard e Karl Marx, Raul e Legião, vinhos tucumã açaí cupuaçu, existencialismo, Floresta Amazônica, jazz e artesanato, entre tantos e tantas e outros e outras e gentes que ninguém sabe quem é. Sou como todo mundo que se perde e se encontra em multidões de pernas e solidões de capitais.

2º Como nasceu o Re-novidade?

Vidal: O marco inicial está no orkut, em fóruns de comunidades como a “Jesus e meus 20 poucos anos”, entre outras, onde comecei a questionar e criticar “teorias avós que bebi” na tradição cristã onde cresci. Foi um tempo de muitas transformações e aprendizagem com os colegas de comunidade. E enquanto mudanças no meu ser aconteciam, textos começavam a nascer. Usei MySpace, depois uma comunidade para armazenar textos, até o amigo Luiz Coelho me perguntar o porque de eu não criar um blog. Abri o “Eu, por mim mesmo” que depois, por sugestão do mesmo Luiz virou Re-novidade. E lá se vão dois anos e oito meses de blog.

3º Uma das maiores alegações dos evangélicos contra a igreja católica é a idolatria. Diante do que vemos atualmente, existe idolatria na igreja evangélica e salvos na igreja católica?

Vidal: Com toda certeza sim. Existem inúmeras formas de idolatria. Ídolo é aquilo que adoramos com nossa forma de existir e que substitui o lugar de Deus. E há pequenos ídolos que ocupam centros de atenções de nosso ser. A cobiça de poder e riquezas, por exemplo, são ídolos de eras, principalmente da atual. Estão presentes em todas as religiões incluindo o Cristianismo em suas mais variadas vertentes. É arriscado apontar idólatras, pois nascemos num sistema onde a idolatria é a lei e des-idolatrar-se não é coisa que acontece da noite para o dia. Dessa forma, a “sacada” de São Paulo é certeira “não há justo, nenhum sequer”.
O que acontece muitas vezes é que o indivíduo que se percebe idólatra na Igreja Romana acaba encontrando nas Igrejas Evangélicas uma espécie de saída. Porque a idolatria é um mal que sufoca. Coisa que no âmago ninguém quer ser. Mas quando a pessoa se “converte” e muda de igreja continua a idolatrar, a Bíblia, o pastor, o artista, as doutrinas, a si mesmo e até Cristo quando o trata como totem. Não houve renascimento para uma nova vida, apenas troca de igreja.
Mas Deus como é rico em Amor aceita-nos apesar dos erros e fraquezas, e perante Ele “não há judeu ou grego”, católico ou protestante, porque a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Aquele que invocar o seu Nome será salvo, mas pra viver a vida abundante cada um deve julgar-se a si mesmo e abandonar o ídolo que desvirtua o seu ser. A conversão nos liberta e nos leva a um novo tipo de caminhada. Mas o ritmo e alguns contornos dependem de nós.

4º O que é a justificação dos pecados?

Vidal: Na justificação Deus declara o homem justo, retira acusações de seus olhos e culpa de suas costas e lhe envia a viver. E o homem vê pela fé que Deus é amor que lhe criou por e para amar.
É como um menino que arrastado na infância por um bando salteador, cresce ouvindo que é um deles e aprende a assaltar com maestria. Mas um dia é encontrado por sua família que lhe mostra que ele foi-feito salteador por salteadores, mas não é, não precisa e não deve mais ser. Então ele deixa a vida antiga pra ser agricultor. Vocação da família, coisa que ele nasceu pra ser.
Tenho problemas com a clássica “Doutrina da Justificação” na forma de apresentá-la. São Paulo inseriu a justificação no contexto cristão a partir dos tribunais, como uma maneira de aclarar o que ele próprio havia experimentado interiormente. Com o tempo, especialmente na Reforma com Calvino ela perde um sentido de imagem e se torna literalmente legal. Chegando ao cúmulo de, algum tempo atrás, um amigo me dizer que calvinismo é apelido pra Evangelho.
Justificar pecados é libertar pra vida. Porque pecado em essência não é ato, pensamento ou omissão, sinais de algo maior que é a separação em todas as direções da existência humana numa sociedade fragmentada. Separado de si, dos outros, da natureza e coisas criadas, caminhando de angústia em angústia o homem segue à perdição. Mas em Cristo Deus o reconcilia, junta os cacos e o impulsiona na direção da vida.

5º O que você pensa da Teologia da Libertação?

Vidal: A melhor reflexão e prática teológica da segunda metade do século XX, especialmente porque surgiu no horizonte latino-americano. Porque ela pôs em foco problemas específicos do mundo subdesenvolvido como a pobreza e a exclusão social, denunciando a atitude “clássica” da Igreja de estar aliada aos opressores. Nessa empreitada dialogou com o mundo, utilizando também o marxismo como instrumento de análise da sociedade. Porém, mais do que com teologias em si (que obviamente contêm falhas e exageros) me identifico com pensadores dessa corrente, especialmente os que fazem parte das minhas leituras cotidianas como o Rubem Alves (considerado um dos pais) e o Leonardo Boff. Hoje focos e ferramentas foram revistas, mas dos grãos antes plantados continuam a nascer árvores que geram novos frutos em outras realidades. E a fé cristã vai saindo do gueto pra agir onde deve que é ativamente nos rumos da sociedade.

6º Você é um blogueiro que escreve muito bem, existe alguma fórmula mágica?

Vidal: Sim! (rsrsrsrsr)
Tento dar o melhor de mim em cada texto, com paciência, gastando o tempo necessário pra ficar “do jeito”. E é claro que em relação aos temas ou às formas tenho sempre como referência pessoas que entendem do assunto.

7º O que te desagrada num blog?

Vidal: Não gosto de textos arrogantes ou preconceituosos. Já deixei de acompanhar blogs por causa do desespero do blogueiro em defender suas opiniões lançando mão de argumentos frouxos, só pra ser do contra. No quesito aparência não gosto de blog muito pesado ou difícil de ler (tipo, tamanho, cor da fonte), mas isso não me impede de acompanhar quando vale a pena.

8º Quais as 5 músicas que fazem parte da sua vida?

Vidal: “Tudo outra vez” de Belchior. “Cool #9” do guitarrista Joe Satriani. “Windows to the soul” do gênio Steve Vai. “Metamorfose Ambulante” do Raul Seixas. E uma que nunca citei em lugar nenhum, pois acabo de lembrar, “Um dia na face da terra…” do Oséias de Paula.

9º Qual o pior: Morrer ou deixar de viver? Por quê?

Vidal: Escolheria morrer. Até porque não vejo a morte como inimiga, e sim como uma aliada da vida. Há gente cuja existência é de morte. Ou seja, anda, fala, come, canta, mas o caminho que segue não é o da vida. É um defunto ambulante. E isso não tem nada a ver com riqueza ou pobreza. É questão de como se enxerga e entende as coisas ao redor. Quero viver e vivo. Mas se um dia deixar de viver ainda vivo prefiro atravessar o rio e ir pra terceira margem, pois lá o criador me espera de braços abertos. Sim, quem disse que a morte é o fim da vida?

10º O que contas de re-novidades?

Vidal: Moro na Bolívia (estudando), mas como neste semestre tive que ficar em Manaus, aproveitei pra visitar uma igreja da qual fui membro. Acabei reencontrando amigos do passado que estão abrindo uma congregação pentecostal independente numa vila da zona rural de Manaus. Eles me convidaram e eu logo visitei, e gostei tanto que passei a freqüentar com eles. A viagem dura aproximadamente duas horas saindo de canoa (com rabeta) do Rio negro e depois subindo o Rio Tarumã-Mirim até o sítio onde ficamos hospedados no Igarapé do Acácio. E as (re)novidades são muitas. As águas escuras dos rios que são enormes e profundos principalmente agora na cheia, a beleza das matas e praias que margeiam os igarapés, a várzea e lugares inundados, as casas e os tapiris solitários no mundo de floresta. Também a cordialidade, espontaneidade e o aconchego de pequena igreja que não perdeu a inocência. A amizade. Os desafios. A fauna, a flora, os frutos típicos da Amazônia e tantas coisas mais! Domingo passado me encarregaram do sermão (pregação). Falei sobre Graça, Fé e boas obras, baseado na Epístola de São Paulo aos Efésios. Os irmãos gostaram… eu gostei. Estou muito contente.

Felicíssimo pela entrevista deixo a vocês meus parceiros e irmãos no Cristo um grande abraço.

Inté!

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