Percepção


Acostumado com a religião, perdi a noção – se é que a tive – de que Deus está em todo lugar. A alienação nos rouba a noção da vida, lacra-nos ante a existência e nos impõe processos de morte. Aos poucos, bem aos poucos, em doses homeopáticas, cresce dentro de nós a insana consciência de que Deus está no templo religioso, ali é sua casa, ali é sua moradia, só ali podemos encontrá-Lo.


Foi fácil para a religião me roubar a alma, me vendar os olhos e manter-me à beira de um abismo: ou serves à igreja, ou serves à vida. Sem saber a verdade, penhorei meu eu à instituição, empenhei minha vida acreditando alcançar o céu. Com toda a sua voracidade, os religiosos me promoveram uma lavagem cerebral, perdi os sentidos, arrebataram-me a sensibilidade. Não vivi, só vegetei.

Agora, longe dos processos religiosos, luto para retomar meus sentidos, reavivar minha alma, consciente de que o tempo não volta, os ambientes se desfazem e a alegria, do que poderia ser, é um tempo irretomável.  Os relacionamentos que se desfizeram com o desligamento me causam preocupação e minha alma se angustia; as amizades, que resistiram ao rompimento, garantem-me que os que foram jamais estiveram e só o que ficou realmente esteve. Acredito e isso me consola; mas ainda não me aquieto, insisto em acreditar que aqueles momentos não foram tão fúteis.

Readquirida a posse da vida, refaço minha espiritualidade; depois de destruídas as raízes da religião, reescrevo minha história, consagrando cada instante, divinizando qualquer ambiente. Recomeço relacionamentos, crio amizades que dependem apenas da disposição de ser, da realidade de estar e do prazer da companhia. Já não existem discursos dogmáticos e obrigações religiosas.

Depois de um domingo à sublime companhia de novas amizades, degustando uma saborosa picanha acompanhada de um bom frisante,  percebo que Tu, oh Deus, Estás aqui e ali, ontem, agora e amanhã, em qualquer lugar, cabendo a mim a delicadeza de perceber-Te.

À Tua sombra, Altíssimo,

Will
2leep.com