Quando decidi sair da igreja (instituição evangélica), os primeiros a saber foram os meus amigos. Como a saída não foi um ato imediato, ou seja, gradativo, paulatinamente ia me desligando daquela que, com seus processos de morte, me alienou. Destes amigos recebi diversos conselhos que se resumem em: cuidado para que, em saindo da igreja, você não saia de Cristo.


Para que não restasse nenhuma dúvida no meu coração, e na alma daqueles aos quais dediquei toda a minha adolescência, nos últimos tempos mergulhei no mais fundo do oceano religioso. Doei-me de corpo, alma e espírito sem temer qualquer perigo.


Desesperançoso, minhas últimas cartadas foram preocupadas com os meus queridos – não podia os abandonar sem, pelo menos, tentar colorir o quadro triste e cinzento que me emoldurava. Tentei. E as principais testemunhas de que por muito tempo, mesmo desacreditado da religião, arranjei esforços da onde jamais pensei haver, foram os meus amigos.

Só hoje percebo porque não logrei êxito. Eu queria que o evangelho se adequasse à religião (e vice-versa), mas meu fracasso foi tal qual o daquele aluno colegial que nas aulas de ciência tenta misturar água e óleo. Desapontado com a “experiência”, abandonei o sistema. Àquele deus não dedico mais os meus mais nobres esforços. É proibido servir a dois Senhores.

Lamentavelmente, meus amigos, mesmo depois de tanto desapontamento, tanta conversa, e de compartilharmos muitos “sacos de sal”, não entenderam minha postura movida à radicalidade do evangelho – ou se entenderam, não admitem. Hoje, quando os revejo, recebo da parte de alguns, e talvez dos melhores, mais próximos e íntimos, considerados como irmãos de sangue, desprezo e indiferença. Isso dói. Dói não por haver algum arrependimento de atitude radical, mas por saber que a única vitória da religião foi esta: tomou alguns dos meus queridos de mim.

Eu jamais duvidei destas amizades. Como poderia desacreditar do sentimento que havia no coração de gente com as quais desfrutei, até então, os melhores dias da minha vida? Como desconfiar de gente que compartilhou o pão da alegria, o da tristeza, o do desapontamento e o pão da felicidade, sobre a mesa da graça, comigo? Seria desumano da minha parte. Jamais poderia me acreditar cristão, se vivesse, com os melhores amigos, ou quem quer que fosse, um sentimento superficial, pois Cristo, mesmo sabendo que seus grandes traidores (não foi só Judas quem o traiu) seriam seus melhores amigos, lavou-lhes os pés.

Mas o desapontamento não me venceu e nem me vencerá. Contra-ataco. Agora, depois de identificado os males que a religião proporcionou à minha existência, vou refazendo minha vida. Construo amizades novas. Novas porque o relacionamento não se sustentará como dantes, na religião. Removo todos os alicerces. Desintoxico meus vínculos. Construo e reconstruo relacionamentos de amizade, sobre o alicerce da disponibilidade. Não há mais interesses além da graça de ser amigo. Não preciso mais de agendas, lugares, obrigações ou deveres. Hoje, meus amigos são amigos independentemente de qualquer coisa que não seja o prazer da voluntariedade.

Como o Nazareno, que após ter vencido a cruz tratou de buscar seus amigos de volta, saio em busca dos queridos que me têm por morto, consciente de que muitos, como Judas, já se enforcaram e são irrecuperáveis, no entanto muito mais são os que esperam ansiosamente, ainda que duvidosos, pela vitória da graça.



Vivendo sob a alvissareira notícia de que a graça já venceu, 


Will
2leep.com