Doce teimosia
“Durar? É estar no tempo, mas na continuidade do tempo. É ter um passado, que cresce. É ter cada vez menos futuro. É levar a peito o presente, em vez de ser levado por ele como uma criança. É levar a peito a própria morte. É amadurecer, caso se consiga. É envelhecer, pois é preciso. É continuar vivendo, lutando, agindo, amando. E superar a fadiga, o tédio, o desgosto, o pavor, o horror. E de quanta coragem precisamos apesar de tudo! Banalidade de tudo, exceto do pior. Fastio de tudo, exceto do melhor. Isso não impede a felicidade, aquela de que continuamos capazes, ou de nos tornarmos capazes…”
André Comte-Sponville, A Vida Humana
Talvez não exista outro momento mais delicado pra mim do que o de tentar passar para o papel aquilo que está na mente ou no coração. Nada mais assombroso do que escrever e, escrevendo, perceber uma fragilidade sutilmente escondida. Não importa se o assunto será científico ou trivial, o xis da questão não é sobre o quê escrever, mas justamente o ter de escrever. Isso me faz crer que poucas pessoas, além do escritor, que obviamente não é meu caso, experimentam a combinação intrigante do terrível e saboroso, do finito e do eterno, ambos, num mesmo instante. O mesmo potencial que um texto tem de surpreender a nós mesmos, também tem de nos revelar que muitas vezes, e não são poucas, tudo o que não deveríamos fazer era isso: escrever.
Então, pra mim, escrever é uma certa teimosia.
Além das situações que acontecem habitualmente e nos dão aquela sensação de isso-daria-um-bom-texto, existem pessoas que gentilmente nos remetem a tais desafios. O Will, dono do Celebrai, é uma delas. Tudo caminhava normalmente até quando o convidei para um passeio na livraria e ele, não podendo ser mais audacioso, me fez o convite para participar do sáite. A completa impossibilidade de recusar a proposta do meu amigo, graças a sua elegância e descontração, é perfeitamente igual à sensação que o leitor terá, todas as segundas-feiras, quando ler meus textos: impossibilidade de saciar o fino gosto literário de quem passa por aqui. Mas continuarei tentando.
Nossa coragem em grupo nem sempre reflete nossa coragem individual.
A Psicologia já deve ter tratado dessa questão. Normalmente, a coragem de um indivíduo é mais visível e até mesmo mais aguçada quando ele está acompanhado. E, ao invés de pegar o próximo livro de Freud ou Jung tendo aquele ar de sou-o-intelectual-e-já-sei-ler-pensadores, basta andar em qualquer ônibus para constatar isso. Você está silenciosamente sentado no banco e ouve a algazarra de um grupo de jovens que está no fundo do veículo. Geralmente existe sempre um que fala mais alto que os demais, sempre um que vai cantar mais alto ou soltar os palavrões e contar os podres de cada um infinitamente mais que os outros. O engraçado é quando o grupo se desfaz, ponto a ponto, e sobra sozinho justamente o que mais falava. É claro que o curioso não é o fato de ele não falar mais, afinal, ele agora está só e não iria falar com as paredes. O curioso é a cara que o sujeito fica, deixando transparecer o que deve estar acontecendo dentro dele: falei demais e agora estou com vergonha do que os outros irão pensar de mim. Com a mesma rapidez que a timidez, em grupo, se faz coragem; a ousadia, sozinho, se faz discrição. É aqui o momento que reservei do texto para falar do meu outro companheiro, o Victor. Porque diante da minha limitação, saber que ele também irá me acompanhar nessa desventura literária me fez criar coragem. Ele é o meu grupo. Acompanhe-o aqui todas as quartas-feiras.
Tudo o que posso dizer além da minha estranha felicidade em fazer parte dessa confraria, é que meus pequenos textos serão repetições da minha precariedade humana. Caminho sem muitas pretensões. Carregado de erros e falhas, viver para mim se tornou um desafio. Espero que cada letra me aproxime do outro. E que até mesmo em cada vez que eu pecar contra as exigentes regências e concordâncias da nossa gramática, algum vínculo seja estabelecido, alguma distância seja encurtada. Acredito na felicidade, em pequenas gotas, e procuro experimentá-la mesmo diante da dificuldade e dor imensas que o sofrimento absolutamente sem sentido nos provoca. Da vida, só não quero ser espectador. Não tenho, e também nunca vi, respostas que sejam melhores que um ombro; definições que sejam mais eficazes que um gesto. Estou cheio de perguntas e elas não me impedem de continuar. Viver, minha doce teimosia.
Laion Monteiro
2leep.com
Lindíssimo texto! Acho que o Celebrai e nós, leitores , ganhamos muito com a sua presença aqui. Espero ansioso seu próximo texto! Abração.