Todos somos páginas. Impossível sair de um encontro interpessoal ileso. A performance do outro feita de inigualáveis sorrisos, discursos, citações, atendimentos ao celular quando você menos espera, experiências, espirros e bocejos, omissões e tudo o que não caberia aqui, lança por terra sem nenhuma dificuldade toda nossa pretensão de segurança. O exato momento da tentativa arrogante de não ser influenciado por ninguém é a derrota anunciada. Porque o outro é assim: lápis que esferografa; risco que nos risca apenas por existir. Assim como o livro só pode ser lido quando aberto, naquela posição de crucificado, apenas vive quem se abre, quem não se permite ficar em branco. Encontra vivência os que se fazem horizonte deitado nas mãos do oposto.

E se somos assim, cadernos à procura de capa e título, as mulheres são os de caligrafia.

O caderno de caligrafia não aceita teses. Ele rejeita obstinadamente qualquer arrogância acadêmica. No caderno de caligrafia as poesias não encontram terreno. Não vi nenhum texto complexo ser vertido naquelas linhas muito próximas entre si. Desprovido de inveja, ele pretere tudo o que escrevemos na sulfite ou na folha convencional. Ante a mesmice de abrigar explicações de um mundo terrivelmente inexplicável, ele prefere amargar a solidão. O caderno de caligrafia é pra quem deseja se aperceber do ínfimo vestígio. Seu ofício católico é dar prumo ao que ainda nasce. A criança que não sabe a letra, nele encontra morada. Os adultos, profissionais da felicidade, querem acertar tudo na primeira investida. Por vezes, somos inimigos do recomeço. Diferentemente, as crianças encontram no pequeno caderno o conforto das repetições. A grafite moída em altos e baixos vai construindo um edificío chamado letra b. O caderno de caligrafia é pra quem deseja aprender a cuidar dos detalhes.

E as mulheres são assim: arquitetas do detalhe.

O terror causado no macho devido à divina preocupação com aquilo que ninguém viu é fatal. As pequenas coisas geralmente são órfãs do olhar masculino. E no mundaréu de detalhes cuidados pela mulher, alguns são vitais. Percebi que nenhum outro artíficio do universo particular feminino é mais avassalador que a disposição dos cabelos. Independente do trabalho que eles dão a elas, parece-me que o sonho de cada uma era tê-los ao sabor do vento. Prendê-los por um mês inteiro é uma ofensa, confessou-me uma amiga. Mas nenhuma dessas coisas, nem mesmo o religioso cuidado capilar, soa-me mais curioso que o trato com as unhas. A mulher sente-se descabida quando as unhas não estão feitas. Milhares de vezes presenciei colegas que sentiam-se nuas por carregar o crime imperdoável de ter atravessado o final de semana sem fazer uma visita à manicure. E minha mãe é manicure. Ela já me contou várias biografias. Das que não foram a uma festa porque a lateral das unhas, após um banho de acetona, ainda guardavam as indesejadas marcas do esmalte anterior. Ou até aquelas que não conseguiram esperar o tempo suficiente pra tinta secar e colaboraram com a aparição das bolinhas. Não fazer as unhas é praticamente um crime culposo; fazer e borrar já é doloso. Indesculpável no tribunal feminino.

O exterior fala muito, mas pouco diz. Acredito que a elegância reside também na capacidade de abrilhantar a mente. As revistas semanais imbecilizam o cérebro, roubam o senso crítico e afogam o feminino na crise da inadequação. Seria melhor que doses cada vez menores de informativos inúteis ou conglomerados virtuais que anunciam os ti-ti-tis dos famosos fossem injetadas no corpo das mulheres. O belo inalcançável martiriza. Eterniza a batalha contra o espelho. A beleza estética é desejável, mas não pode (e nem consegue) suplantar a beleza de sentido – essa que está além das vitrines. Há que saber lidar com a imposição da beleza feita pela mídia. Não nascemos para salvaguardar a mediocridade. A mulher é bela quando incita a busca pelo aperfeiçoamento nos detalhes.

Nestes termos, talvez a inexorável sina feminina seja essa: a de exercitar a combinação. Unir a preocupação estética com o cuidado de manter um coração e mente saudáveis. Recentemente, andando no metrô apinhado de gente, vi uma ragazza perdida num Dostoiévski. Na Bienal, uma moça de tenra idade decidia qual obra de Mia Couto levar para casa. Ainda há pouco, outra amiga indicou-me Lacan, Foucault e Sartre. Outra, que nem ler sabia, me disse tio, como o mundo é grande! Todas elas arrancaram-me do comum; lançaram-me pro numinoso, para aquilo que ninguém vê. Ajudaram-me a ter um caso de amor com a vida. Sobretudo, ensinaram-me a olhar para os detalhes. Ao lado delas, transformei-me também num caderno de caligrafia.

Laion Monteiro

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