Estranha loucura
“A vida não foi feita para ser pouca e breve.”
Mia Couto, Antes de Nascer o Mundo
É a minha vivência que denuncia meus anseios. Desnecessária qualquer crença mística para atestar minha confiança no sem-fim. Minha estranha loucura em crer na vida eterna dispensa o apoio escatológico. Diante das intrépidas certezas que alegam uma única existência para essa minha carne, descarto a possibilidade de defender esse meu transe através de teses apologéticas. Vida eterna para mim é totalmente amável, digna de aceitação. E sinto que não preciso defender o que é digno de amor. Porque diante do amável, pede-se entrega. E se há entrega, não há intriga. Sem intriga, sem defesas. Sem defesas, sem temor. Sem medo, puro amor.
Minha carne e os fios do meu sangue: o meu eu: tudo o que tenho. O meu dia-a-dia, minhas vontades, paixões, delírios, mazelas e virtudes, amores, o ônibus, a esquina, o metrô, a avenida, minha casa, a rua, os outros, a solidão; eis a matéria-prima da minha fé. Vou me definindo a cada passo, inevitavelmente a cada reação e omissão. Exibo a estirpe de minha crença não na declaração dos credos ou obediência aos ritos, mas no trato com o outro. Minha confiança de que a vida veio para ser eterna ganha tenência a todo instante, a cada toque em outra pele, a cada conversa que traz saudade.
São várias as coisas que intento nesse desvairo para aprisionar o presente. Leio livros, assisto a filmes, ouço canções, converso com amigos e desconhecidos, e tudo sopra em mim uma saudade inexplicável. Às vezes penso até que sou feito de lugares: ruas e vielas por onde nunca andei. Ler não basta, assistir não basta, ouvir não basta, conversar não basta, viver não basta…e procuro o que basta.
Estou indo em direção ao que me basta e a saudade durante o caminho é a prova cabal de que não nasci pra ser fugaz. Creio na ressurreição do corpo. Creio absolutamente na eternização do sorriso, da mesa posta, do amor envolvente. E essa minha devoção não solicita outra coisa senão eternizar tudo o que tenho: o meu hoje. A vida aqui e agora.
Meus dias passam como neblina; e o hoje está grávido de eternidade.
Laion Monteiro
2leep.com
Parabêns! Excelente comentarios ,tambêm tenho esta mesma ideia.muito bom.