Inexorável. É a definição perfeita para o passar dos anos. Só a morte pode nos salvar de tamanha previsibilidade. Mas dessa salvação ninguém quer beber, pois já se sabe sobre sua impertinência.

Mas o que será que se leva dessa vida? Quem sabe as lembranças, pois ser humano é ser composto, também, por estes fragmentos do passado que são sempre tão vivos e presentes. Ou talvez nem isso. É a trama humana.

Na abertura de um novo tempo, explode a expectativa do novo, do que há de vir. São planos, sonhos, alvos que serão, ou não, alcançados. Na contramão estão o marasmo, a mesmice e a monotonia. O equilibrador desta balança se chama imponderável.

Qualquer ser humano bem evoluído compreende a doce verdade de que amigos se escolhem quais serão, mas jamais poder-se-á determinar o tempo que eles chegarão. Ninguém sabe exatamente o que se levará daqui, mas é certo o que se deixará: amigos. Amizades são a encarnação do imprevisível.

O primeiro amor é a família. Nasce-se e ela lá está. Ninguém, num processo natural, escolhe a família que terá. Felizes são aqueles que receberam da vida a grata surpresa de nascer numa família que lhe ame. Contudo, há uma forma de amor que atravessa esse processo natural: a amizade. Não é, portanto, exagerado dizer que amizades são sobrenaturais.

À semelhança do nascimento que há pouco celebramos, o ano que passou foi uma manjedoura na minha vida. Este sobrenatural a que me referi tornou-se gente com a mesma exuberância que se deu a encarnação do Deus menino. Em meio a tanta coisa, perdas e ganhos, inícios e fins, fui golpeado sem misericórdia por incompreensível surpresa.

Queres uma definição para 2010? Ora, se amizades são o início de uma longa jornada acompanhado, logo não se pode dizer outra coisa acerca do meu ano que não seja que ele foi fértil. Plantei amor, carinho e respeito e o bom Deus cooperou para que minha vida fosse infestada por um enxame de gente muito querida.

Comecei 2010 com um peso horrível sobre as costas. Doía-me a dor da despedida, embora eu quisesse que fosse um “até logo” ou mesmo um “vamos mudar de caminho”. 2009, embora tenha sido um ano de decisões pontuais, portanto de suma importância para minha evolução existencial, cheio de perdas e esfriamentos, parecia que não ia terminar em 2009. Uma forte neblina confundia minha visão acerca de 2010. O novo, agora velho, ano continuaria a dançar com a música que envolveu o ano que terminara? Temi.

No entanto, algo tomou as rédeas do novo ano. Com o fim de mais uma década, a minha segunda, e, portanto, o fim de um ciclo, minha primeira graduação; com o cumprimento de mais uma etapa do encaminhamento da minha história, como a de todo mortal, para o seu fim – ou seria uma breve pausa? –  o grande vencedor de toda esta evolução revelou-se, outra vez, e deixou cicatrizado em mim, com tantos amigos ganhos, que mesmo tendo Ele sido deitado numa cruz, como sentença de uma condenação injusta, já está vencida toda a trama humana naquela mesma cruz e, pouco depois, com a sua ressurreição. Seu nome? AMOR.

Feliz ano velho!

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