É sensato a qualquer ser suficientemente inteligente curvar-se diante da cruel realidade que desmente a pretensão daqueles que se autonomeiam possuidores da verdade. Ainda que tamanho escancaramento cause um sentimento de incapacidade perpétua, ninguém, absolutamente, tem respostas para todas as questões do mundo. Por tamanha conversão, há de se reconhecer e louvar a san(t)idade daqueles que abriram mão de “possuir” todas as respostas, sob o risco de se tornarem mártires da incredulidade. Para tanto, paradoxalmente, fé e serenidade são indispensáveis.

Vez por outra, algum arauto da verdade se atreve a erguer a bandeira das respostas satisfatórias, mas a vida não se equaciona, logo surgem novas perguntas, percebe-se que as respostas dadas são insuficientes. Não demora e o arauto desfalece. Neste perigoso e frustrante labor, a religião se aventura e comete um suicídio a cada vez que se diz portadora da verdade. E Verte sobre si a dicotomia da morte: é homicida ao se colocar entre Deus e os homens, e suicida, quando se autonomeia portadora de todas as respostas.

No Brasil, o mês de janeiro é sempre traiçoeiro. Com o ápice do verão, as chuvas demonstram-se impiedosas, cheias de furor. Somadas ao descaso dos responsáveis pela devida organização das cidades (leia-se políticos), produzem resultados inestimáveis. Um grande contingente de pessoas perde suas casas, suas coisas, suas vidas.

Sofrendo com a maior tragédia natural do país, em que milhares de pessoas perderam seus lares e carros, conquistados a tanto custo e outros tantos que perderam o que há de mais precioso para um ser: a vida; diante do caos e da dor, busca-se respostas, entendendo serem elas o alívio para as aflitas almas. Além da evidente resposta que propõe caber boa parte da culpa aos “organizadores das cidades”, uns outros, religiosos em sua maioria, respondem que “foi a vontade de Deus” ou “coisa do destino”. Mas em meio a tanto barulho, olha-se para a cruz e vê-se que o Deus que se fez homem sentiu o drama o humano até a morte.

A encarnação continua...Solidariedade: Enquanto alguns pilantras vendiam água a R$ 40,00 o galao, dona Nilva ofereceu GRATUITAMENTE a água de seu poço para quem precisasse. (imagem de José Barbosa Júnior)

Tamanha percepção salva os homens de suas respostas, comprovando ser mais humano (e divino) encarnar do que falar. Sujar os pés e as mãos de barro e se entregar à dor das gentes.

Abrir mão de ter todas as respostas é um gesto de alta san(t)idade. A encarnação continua. Experimentemos.

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