- Como é mesmo aquela frase que Will te disse no domingo?
- A frase era “Por isso que pra mim existem duas coisas imprevisíveis: o amor e a morte”.
- Sim, mas cabe aqui explicar o “por isso”.

Ninguém ama sem antes ser amado. Água que deságua em nós: continuidade de sentidos. Sentimos, amamos; amamos, sentem. O amor é um movimento solitário. Ninguém ama em nosso lugar. Amar: encontro de solidões. A carência do meu corpo encontrando reticência na estrutura do outro. Era o meu horror. Completo horror. Meu corpo antes sempre reduzido ao meu entendimento, agora já não sabia discernir onde terminava. Conversava com o Will e tecia palavras descabidas. Quem ama fica mesmo assim: perdido em vocábulos. Ele me ajudava a entender o porquê de ter me achado num corpo tão distante: ela.

“Gente, isso tá errado!”, ela dizia. “Isso não é hora, isso não está certo, é muito cedo!”. O sentimento de inadequação diante de algo novo a angustiava, num misto de culpa e medo. Como assim, já? O que diriam? O que ela diria? Saberia lidar com toda essa novidade, que surgia imperiosa, que “chegou chegando”, folgada, espaçosa, invadindo espaços, reorganizando móveis sem pedir licença? Não tinham avisado que seria esse o momento de reclusão, de autodescoberta, de apaixonar-se por si mesma? “Agora não é hora!”. Seguiu angustiada, estruturada, segura, controlada até ouvir o óbvio, aquela afirmação trivial que faz tanto sentido que nos faz calar, simplesmente: “E isso tem hora, menina?”.

É, o amor não tem hora pra acontecer. Pra amar basta estar vivo. Pra amar e morrer.

Sabedoria do Eclesiastes, Existe um tempo determinado para todas as coisas debaixo do sol. O problema todo é que na morte, bem como no amor, tudo o que nos falta é justamente o tempo. Diante da angústia do que se foi, limitamo-nos a apenas sepultar lembranças. E tal sepultamento é o que desvia nossa percepção de que ainda existe o tempo. Paralisados de tudo. Igualmente no amor desconhecemos a arte de contar as horas. Amar é contar o tempo com acontecimentos e episódios. Solidão de tudo: amar e o morrer. Ninguém morre em nosso lugar. Queríamos, mas tal tarefa é designada nome a nome. Um por um. Assimilei o que o Will me ensinava: existem movimentos da vida que exigem tudo, menos explicação. Dois deles: a morte e o amor. Imprevisíveis, porque livres. O que excede entendimentos pede apenas abertura. Suscetibilidade. Espada que corta um soldado rendido.

Pulsões de vida e de morte. Amor e morte. Sem relógio, sem calendário. Sem controle. Sempre iminentes, irremediavelmente imprevisíveis. Diante do amor e da morte, resistir é, invariavelmente, inútil. “Eu me rendo”.

Salta a minha compreensão do nada. Sinistro. Entendi as palavras do Will, claro. Apenas não ando me entendendo. O amor e a morte como parceiros na agonia. Percebi-me abrindo mão do poder sem ao menos esperar. A vida, de mortes e amores, deve ser mesmo assim: explicação antes da pergunta. Quando dei por mim, já era dela. O amor desorganiza. A morte apenas nos resta.

A vida não obedece a crenças.

Laion Monteiro e Priscila Seabra

*Priscila Seabra é educadora e edita os blogs ExDuco e Através do Monitor

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