Entrevistas
Um Bomfim
12Livros:
- A mulher que matou os peixes – Clarice Lispector
- A cadeira de Prata – C.S. Lewis (garças ao paulama)
- Oliver Twist – Charles Dickens
- Cândido – Voltaire
- Blue Like Jazz – Donald Miller
- Into The Wild (não sai da minha ideia dar uma de louco igual o Christopher McCandless e sair pelo mundo)
- O Advogado do Diabo
- Estamira
- Gran Torino
- A Missão (quase virei católico por conta desse filme. Sou simpatizante dos Jesuítas graças ao Robert De Niro)
A voz da Gruta
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Gosto de vasculhar a blogosfera; encontro muita coisa boa – o contrário é devidamente proporcional. Numas dessas minhas (di)vagações conheci a GRUTA. Calma! Não se trata de um blog feito pelo rei Davi ou qualquer um dos seus guerreiros, mas é um blog muito bacana do Lou (Luiz Henrique Mello).A Gruta é uma das provas da diversidade blogosférica; feita por um cristão de fé evangélica, é dedicada para todo tipo de público (sem rabo preso). Portanto, nessa nova entrevista do Celebrai, entrevistamos o homem da Gruta, e antes que eu diga mais sobre a Gruta, segue a entrevista…ah, só pra frisar: O Lou é um cristão muito bacana – conheça um pouco e concordarás -, o único problema dele é ser corintiano, mas o importante é ter saúde . Para conhecer mais, visite a Gruta: A Gruta do Lou
(Como sempre, não fazemos nenhum tipo de edição, nem ortográfica.)
Estou honrado em responder a essa entrevista. Tentei imaginar a situação de estar sendo entrevistado pessoalmente. Citei as coisas de cabeça e livremente, sem me preocupar com estilo ou forma. Acabou ficando um documento longo. Espero ter sido relevante. Muito obrigado pela oportunidade. Abraços gerais. (Lou Mello)
1ª Quem é ou não é Lou Mello?
Lou: Tenho respondido a primeira parte dessa pergunta com uma afirmação do Homem de Kiev, ou seja: “Sou pouco, mas muito mais do que nada.” Mas posso fazer melhor para você, sou um velho soldado de Cristo com boa experiência acumulada em algumas áreas, tais como Missões, pastorado, evangelização holística e ensino. Me graduei em Educação Fisica, estudei Administração de Empresas, fiz a Educação Continuada da GV em Administração de Organizações Sem Fins Lucrativos e Teologia. Some-se a isso as minhas incursões na área empresarial e em educação secular. Não fiz opção em política partidária e minha tendência é anárquica, em termos de governo. Creio em deixar o rio correr e ele achará seu caminho. A segunda parte da questão, sobre o que não sou, o mais importante é mencionar minha proverbial falta de ambição material, em parte verdadeira. Gosto de perder, sei que tal afirmação costuma ser relacionada na coluna dos pecados, atualmente, mas se você quer a taça, pode ficar com ela. Prefiro mil vezes ser feliz do que estar certo e um milhão de vezes ganhar perdendo. Não sei se isso faz algum sentido.
2ª Como surgiu a Gruta?
Lou: Em parte, quem inventou a Gruta foi Davi. Ele mesmo, o arquiinimigo de Saul que namorou a filha e o filho de Saul. Estou brincando, claro. Lembra da Caverna de Adulão? Era um sonho antigo trabalhar segundo aquela narrativa bíblica, e formar uma espécie de exército de miseráveis ou maltrapilhos como prefere o Manning. O blog começou com o título de Well my friends, aquela bobagem que o Galvão Bueno fala toda hora, em suas transmissões, só que em português porque ele não tem um décimo de minha perspicácia e charme. Mas daí, pensei, por que não ser mais fiel à idéia, só que já havia uns excomungados em Minas com um ministério Caverna de Adulão. Em minha experiência consta algumas incursões em grutas como a Gruta de Maquiné, na terra de João Guimarães Rosa, a Mina de Morro Velho em Minas que começou em uma gruta, uma outra mina de ouro em Joanesburg Africa do Sul, também iniciada em uma gruta, e sem falar no fato de Jesus ter nascido em uma Gruta em Belém e ter sido enterrado em uma gruta em Jerusalém. Não sei, mas acabei acreditando que Deus estava me dizendo alguma coisa e mudei o nome do blog para Gruta. Os propósitos continuam os mesmos, ou seja, defender essa gentalha marginalizada pelo poder dominante, enfim, eu mesmo, antes de todos. Sinto que Deus, ainda que em segredo para não pegar mal, tem um certo zelo por nós.
3ª Conte-nos um pouco sobre sua história na igreja evangélica.
Lou: Como a maioria, comecei arminianamente levantando minha mão ao apelo do Pr. Enéas Tonini lá na Igreja Cristo Salva, do saudoso Tio Cássio. Que ninguém nos ouça, considero minha real conversão uma experiência meio mística ocorrida em casa, na beira da minha cama, enquanto orava sob a pressão de estar sem dinheiro, sem amor e sem rumo, ouvi a indicação de um salmo, aquelas coisas que costumam acontecer com os esquizofrênicos. Na hora fiquei maluco, queria saber de onde vinha aquilo, pois eu estava sozinho em casa e a TV estava desligada. Durante um tempo achei que estava louco, mas depois passou e tive que me contentar em ser normal. Aceitar Jesus mediante apelo do Eneas Tonini foi só o cumprimento do dogma para satisfazer farizeus e saduceus. Depois disso fiquei por lá mesmo, mas fui estudar teologia por que pintou certa desconfiança da competência do Tio Cássio e seus seguidores. Não adiantou muito porque escolhi a escola teológica do inimigo (FTBSP) e, claro, eles estavam do outro lado da história. Fiz minha primeira viagem missionária para Albânia e Leste Europeu, paga com grana da Cristo Salva e da Missão Antioquia. Na volta fui guindado pelo Dr. Dale Kietzman, um gênio da propaganda cristã evangélica, para trabalhar na Missão Portas Abertas. Foi uma experiência muito boa, onde fui iniciado nas práticas malévolas do Dr. Dale. Durante três anos correu tudo bem, até um cretino que ocupava o cargo de secretário executivo botar na cabeça que eu almejava o cargo dele. O infeliz não descansou enquanto não convenceu a diretoria e o Dale a me chutarem de lá. Isso foi em 1982. Em meados de 1991, voltei a trabalhar lá extra oficialmente como preferia o outro pateta que dirigia a Missão, então. Mas não durou. Depois que deixei a Portas Abertas achei que tinha nas mãos uma mercadoria valiosa para vender ao mercado evangélico, ou seja, meus conhecimentos únicos sobre Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos) para organizações cristãs evangélicas. Alias estou carregando essa mala até hoje sem nunca ter conseguido vender para ninguém por aqui. O pessoal prefere não mexer em time que está ganhando. Trabalhei em um monte de organizações, sem conseguir implementar nada. Pessoal quer a coisa funcionando, mas sem investimento.
Entre as tantas, citaria o Exército de Salvação, Vencedores por Cristo e Esquadrão Vida de Sorocaba. Trabalhei com o Apóstolo Jorge Tadeu, da Igreja Maná de Portugal, se bem que, mais na área de informática onde o cara é fera. Em meio a isso tudo, fui membro da Batista do Morumbi e da extinta Batista do Sumarezinho. Em Sorocaba, tentei a Batista Boas Novas, mas não deu. Fui parar em uma Igreja de beira de barranco e depois desisti, do modelo. Pelo menos por enquanto. Foi nessa época que surgiu a Gruta, coincidentemente, onde estou tempo integral. Duro é pagar as contas no fim do mês.
4ª Dê-nos suas impressões sobre teologia.
Lou: Rapaz, a coisa ainda está caminhando nesta área, para mim. Não tenho posições definidas, ainda. Não ria, por favor. Aprendi nos tempos de Seminário que na primeira fase do saber (A velha Teoria do Conhecimento) você começa no dogmatismo e vai até o liberalismo, passando pelo relativismo. Quando você cansa de ser liberal e ver todas as portas fechadas e aquelas caras de desprezo cada vez que encontra os irmãos, descobre que chegou a hora de migrar para a segunda fase do conhecimento. Então começa a ler o Nietzsche e descobre que todos os teólogos são niilistas e, pior, que o cara tem toda a razão. O mais difícil foi aceitar a necessidade de abandonar a compaixão. Segundo o Nietzsche, Aristóteles receitava laxante para quem estivesse sofrendo de compaixão, seja lá pelo que fosse. Bom, mas isso tudo já ficou para trás, embora ainda leia o maluco. Não consigo deixá-lo de vez, é muito bom. Depois veio o Kierkgaard e o Conceito de Angústia. Foi um baque descobrir que a maior parte de nossas crenças são apenas respostas às nossas angústias, inclusive a angústia diante da inevitável verdade diante do pecado e a necessidade de um Deus e seu perdão eterno. Em outras palavras, descobri que Deus não estava na parada, até então, a não ser uma ou outra iniciativa voluntária, independente de minhas falsas crenças, do magnânimo.
Aí vieram o Pascal, Heideguer, Camus, Fromm e toda turma existencialista. Então fui chegando mais perto de Deus, como nunca havia experimentado. Engraçado descobrir na mesma sala um monte de católicos como Manning, Nouwen, Anselm Grunn, Queiruga, os protestantes Yancey, Tillich, Peterson e psicanalistas como Erich Fromm e Jacques Ellul, muito bem explorado por Eugene Peterson no excelente livro O Pastor Desnecessário. Legal porque eles fizeram um caminho parecido com o meu, embora com muito mais substância, claro. Para você ter uma idéia, estou mais próximo da oração, da meditação, jejum e todos esses ritos ultrapassados, agora. Talvez seja a idade ou o alzheimer chegando. Gostaria de ver a igreja renascer forte e imponente, deixando para trás toda essa vergonha experimentada por minha geração. Ando com muita vontade de celebrar a ceia com meus irmãos em Cristo.
5ª Você foi professor de homilética, portanto, o que qualifica a pregação?
Lou: Essa é fácil, até que enfim. A pregação só será relevante se ela for construída sobre o alicerce de uma competente proposição. Isso se aplica à pregação expositiva, método que depois de experimentado não deixa mais espaço aos outros. Quem o faz, torna-se narrador da Palavra e acha o mapa do tesouro. Narrei a Vida de Jesus, com boa dose de humor e fiquei encantado. Duro foi olhar no espelho, depois, e ver você perguntando: o que você fez esse tempo todo, antes de descobrir a pérola de grande valor? Meu Deus!
6ª Conte-nos sobre seus trabalhos sociais.
A cada mil nascimentos, oito nascem com cardiopatias complexas e muito graves, onde só cirurgias de alta resolução e complexidade podem ajudar. O número de óbitos é expressivo, nesses casos. Creio ter feito algo em favor dos dependentes químicos, ajudando a treinar e capacitar pessoal envolvido no trabalho de recuperação, tanto em termos dos tratamentos como em relação a infraestrutura administrativa necessária.
Pena que o pessoal não tem me chamado mais para esse trabalho. Minha melhor contribuição sempre foi para com as crianças em situação de risco, tanto como orientador e consultor de várias organizações, como atuando em direção de creches públicas, casa de recuperação de crianças dependentes de drogas e como professor de Educação Física em escolas nas longínquas periferias de São Paulo.
7ª Quais, na sua opinião, os pensadores cristãos que mais entenderam a proposta do evangelho?
Lou: Agostinho, Martinho Lutero, Calvino, Chesterton, C. S. Lewis, Bonhoefer, Barth,
Bultmann, Berkouwer, Cullman, Moltmann, George Ladd, etc. Estou sendo injusto com muitos outros, certamente. Ernest Renan e Albert Schweitzer narraram a vida de Jesus exemplarmente, também. Gente que captou a missão do Mestre de Nazaré. Dos nacionais, pelo menos dos que fazer teologia por aqui, há o Julio Zabatiero, Dr. Russell Shedd, Jacy Maraschin, Antonio Mendonça, Rubem Alves e um monte de gente excelente que não é publicada pelas editoras ditas nacionais, mas estão a serviço dos poderosos teólogos alienígenas. Negócio é destilar nosso veneno via blog, a nossa melhor opção.
Lou: Bom, uma das razões por que os atores desse cenário não querem me ouvir é, justamente, porque sempre combati o sustento de originário do poder público, seja qual for a esfera. Por definição, ONGs significa Organização não Governamental. Quando uma ONG celebra esse tipo de contrato, se descaracteriza e vira uma agenciazinha de terceira, feito aquela carne que você só compra quando está duro e não leva mistura decente para casa a mais de quinze dias. Uma ONG honrada deve ser sustentada pela contribuição das pessoas da comunidade (geográfica ou afins). Em todo o mundo, particularmente nos países chamados desenvolvidos, o melhor contribuinte das ONGs é a pessoa física. Governos e empresas comerciais aparecem do quinto lugar para baixo.
Para as ONG’s evangélicas há uma vantagem importante sobre as demais, o fato de contar com uma comunidade homogênea e melhor preparada para contribuir. Claro que é preciso enganar o inimigo, ou seja, os pastores, ávidos pelo dinheirinho das ovelhas.
No Brasil, as gestões Fernando Henrique e Lula fizeram estragos consideráveis em nossa capacidade de contribuir objetivando tirar proveito do chamado dinheiro filantrópico. É bom lembrar que Governos não têm dinheiro. Qualquer centavo que eles doarem será extorquido a poder de armas e justiça do povo que juram servir. As empresas comerciais se envolvem de olho no aumento de vendas de seus produtos. Vejo um longo trabalho pela frente para resgatar o que havíamos conquistado em matéria de contribuição nos anos oitenta e seguir adiante para fazer jus a nossa fama de povo solidário, na condição de cristãos e brasileiros. Se podemos chamar de segredo, então é trabalhar (e bota trabalho nisso) para montar uma base de sustento formado, antes de mais nada, por pessoas físicas. Existe toda uma engenharia para nos ajudar nisso.
9ª Pensando em todo o cenário evangélico brasileiro, podemos dizer que o movimento evangélico deixa a desejar nas questões sociais?
Lou: Na minha opinião, sim e muito. Mais de noventa por cento das organizações evangélicas, sejam igrejas ou as tais paraeclesiásticas, estão na condição citada acima, ou seja, servindo ao inimigo, a saber: o governo, que além de corrupto é o maior inimigo do nosso povo, dos brasileiros e dos evangélicos. Nunca imaginei que fossemos ver nosso pessoal sob esse jugo. Gente despreparada e inconseqüente ajudou a empurrar a turma precipício abaixo. Os católicos e os espíritas fizeram o mesmo e o governo passou a dar as cartas. A tal nova constituição contribui muito para esse triste estado de coisas. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) tem contribuído como poucos para a escalada da violência, da exploração de crianças e adolescentes, dessas coisas horrorosas que inventaram para aprisionar os menores, caso da tal fundação CASA e, o pior, a mortalidade de nossa juventude cresce em ritmo atômico. Nessa dependência, o trabalho social empobreceu. Ao dar o dinheiro, o governo dita as regras através das chamadas políticas públicas. Agora é a vez de todo mundo cuidar de LAs (Liberdade Assistida), depois será a vez disso e depois daquilo. Sempre objetivando os interesses políticos eleitoreiros. Enquanto isso, milhares de crianças morrem por não conseguirem tratar suas cardiopatias congênitas, o atendimento aos portadores de câncer é precário com as entidades mendigando sustento e atendendo mal, os portadores de síndrome de Down penam tentando se incluídos, tanto quanto os cegos, surdos e autistas, os velhinhos ficam esquecidos enquanto são tratados feito trapo, há os aidéticos e é bom não esquecer dos quase trinta milhões de portadores do vírus da AIDS africanos e mais zilhões de causas não assistidas ou tratadas precariamente. Nós continuamos aquartelados. Fico perplexo quando descubro ser uma espécie rara por ter andando em solo africano, no nordeste, na Amazônia ou no pantanal onde tem miséria para dar e vender.
10ª Quando a igreja é uma gruta e a gruta é uma igreja?
Vidal: um cronista genial (sem exagero)
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Com o passar do tempo a internet tornou-se um ótimo lugar para troca de conhecimento e experiências – não há dúvida de que os blogs têm cumprido este papel de maneira eficaz.Um dos maiores comentaristas desta casa, chama-se Éverton Vidal. Pelo número de comentários e pelos sentimentos deixados em alguns comentários, concluímos que ele é um viciado neste blog – a recíproca é verdadeira, seu blog é viciante também.
Vidal é pensador, poeta, cronista, enfim, um cristão diferenciado; estudante de medicina, fascinado em pensar, logo, não muito querido da religião.
Nessa entrevista concedida ao Celebrai!, Vidal revela-se um cara de uma alma invejável. Um jovem diferenciado ante a juventude alienada destes tempos pós-modernos.
Esta é uma boa oportunidade para que nossos leitores conheçam – se já não o conhecem – este companheirásso (permitam-me um neologismo, se é que já esta palavra não existe) do Celebrai!
1º Quem é Éverton Vidal?
Vidal: Eu sou apenas um rapaz latino-americano brasileiro acreano de Brasiléia e amazonense por adoção. Estudante de medicina e amante de música e poeta em construção. Simples e tranqüilo, quase-hippie, sentimental, às vezes impulsivo. Cristão católico protestante evangélico carismático progressista liberal conservador, que acha fascinante a religiosidade, gosta de estatuetas e ícones e liturgia e vida religiosa contemplativa. Ecumênico, tolerante com aquilo que se pode tolerar. Falador que às vezes se cala. Peregrino, levemente distante, reflexivo, discretamente feliz, fã de Belchior e Hermeto, Cecília e Adélia, Kierkegaard e Karl Marx, Raul e Legião, vinhos tucumã açaí cupuaçu, existencialismo, Floresta Amazônica, jazz e artesanato, entre tantos e tantas e outros e outras e gentes que ninguém sabe quem é. Sou como todo mundo que se perde e se encontra em multidões de pernas e solidões de capitais.
2º Como nasceu o Re-novidade?
Vidal: O marco inicial está no orkut, em fóruns de comunidades como a “Jesus e meus 20 poucos anos”, entre outras, onde comecei a questionar e criticar “teorias avós que bebi” na tradição cristã onde cresci. Foi um tempo de muitas transformações e aprendizagem com os colegas de comunidade. E enquanto mudanças no meu ser aconteciam, textos começavam a nascer. Usei MySpace, depois uma comunidade para armazenar textos, até o amigo Luiz Coelho me perguntar o porque de eu não criar um blog. Abri o “Eu, por mim mesmo” que depois, por sugestão do mesmo Luiz virou Re-novidade. E lá se vão dois anos e oito meses de blog.
3º Uma das maiores alegações dos evangélicos contra a igreja católica é a idolatria. Diante do que vemos atualmente, existe idolatria na igreja evangélica e salvos na igreja católica?
Vidal: Com toda certeza sim. Existem inúmeras formas de idolatria. Ídolo é aquilo que adoramos com nossa forma de existir e que substitui o lugar de Deus. E há pequenos ídolos que ocupam centros de atenções de nosso ser. A cobiça de poder e riquezas, por exemplo, são ídolos de eras, principalmente da atual. Estão presentes em todas as religiões incluindo o Cristianismo em suas mais variadas vertentes. É arriscado apontar idólatras, pois nascemos num sistema onde a idolatria é a lei e des-idolatrar-se não é coisa que acontece da noite para o dia. Dessa forma, a “sacada” de São Paulo é certeira “não há justo, nenhum sequer”.
O que acontece muitas vezes é que o indivíduo que se percebe idólatra na Igreja Romana acaba encontrando nas Igrejas Evangélicas uma espécie de saída. Porque a idolatria é um mal que sufoca. Coisa que no âmago ninguém quer ser. Mas quando a pessoa se “converte” e muda de igreja continua a idolatrar, a Bíblia, o pastor, o artista, as doutrinas, a si mesmo e até Cristo quando o trata como totem. Não houve renascimento para uma nova vida, apenas troca de igreja.
Mas Deus como é rico em Amor aceita-nos apesar dos erros e fraquezas, e perante Ele “não há judeu ou grego”, católico ou protestante, porque a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Aquele que invocar o seu Nome será salvo, mas pra viver a vida abundante cada um deve julgar-se a si mesmo e abandonar o ídolo que desvirtua o seu ser. A conversão nos liberta e nos leva a um novo tipo de caminhada. Mas o ritmo e alguns contornos dependem de nós.
4º O que é a justificação dos pecados?
Vidal: Na justificação Deus declara o homem justo, retira acusações de seus olhos e culpa de suas costas e lhe envia a viver. E o homem vê pela fé que Deus é amor que lhe criou por e para amar.
É como um menino que arrastado na infância por um bando salteador, cresce ouvindo que é um deles e aprende a assaltar com maestria. Mas um dia é encontrado por sua família que lhe mostra que ele foi-feito salteador por salteadores, mas não é, não precisa e não deve mais ser. Então ele deixa a vida antiga pra ser agricultor. Vocação da família, coisa que ele nasceu pra ser.
Tenho problemas com a clássica “Doutrina da Justificação” na forma de apresentá-la. São Paulo inseriu a justificação no contexto cristão a partir dos tribunais, como uma maneira de aclarar o que ele próprio havia experimentado interiormente. Com o tempo, especialmente na Reforma com Calvino ela perde um sentido de imagem e se torna literalmente legal. Chegando ao cúmulo de, algum tempo atrás, um amigo me dizer que calvinismo é apelido pra Evangelho.
Justificar pecados é libertar pra vida. Porque pecado em essência não é ato, pensamento ou omissão, sinais de algo maior que é a separação em todas as direções da existência humana numa sociedade fragmentada. Separado de si, dos outros, da natureza e coisas criadas, caminhando de angústia em angústia o homem segue à perdição. Mas em Cristo Deus o reconcilia, junta os cacos e o impulsiona na direção da vida.
5º O que você pensa da Teologia da Libertação?
Vidal: A melhor reflexão e prática teológica da segunda metade do século XX, especialmente porque surgiu no horizonte latino-americano. Porque ela pôs em foco problemas específicos do mundo subdesenvolvido como a pobreza e a exclusão social, denunciando a atitude “clássica” da Igreja de estar aliada aos opressores. Nessa empreitada dialogou com o mundo, utilizando também o marxismo como instrumento de análise da sociedade. Porém, mais do que com teologias em si (que obviamente contêm falhas e exageros) me identifico com pensadores dessa corrente, especialmente os que fazem parte das minhas leituras cotidianas como o Rubem Alves (considerado um dos pais) e o Leonardo Boff. Hoje focos e ferramentas foram revistas, mas dos grãos antes plantados continuam a nascer árvores que geram novos frutos em outras realidades. E a fé cristã vai saindo do gueto pra agir onde deve que é ativamente nos rumos da sociedade.
6º Você é um blogueiro que escreve muito bem, existe alguma fórmula mágica?
Vidal: Sim! (rsrsrsrsr)
Tento dar o melhor de mim em cada texto, com paciência, gastando o tempo necessário pra ficar “do jeito”. E é claro que em relação aos temas ou às formas tenho sempre como referência pessoas que entendem do assunto.
7º O que te desagrada num blog?
Vidal: Não gosto de textos arrogantes ou preconceituosos. Já deixei de acompanhar blogs por causa do desespero do blogueiro em defender suas opiniões lançando mão de argumentos frouxos, só pra ser do contra. No quesito aparência não gosto de blog muito pesado ou difícil de ler (tipo, tamanho, cor da fonte), mas isso não me impede de acompanhar quando vale a pena.
8º Quais as 5 músicas que fazem parte da sua vida?
Vidal: “Tudo outra vez” de Belchior. “Cool #9” do guitarrista Joe Satriani. “Windows to the soul” do gênio Steve Vai. “Metamorfose Ambulante” do Raul Seixas. E uma que nunca citei em lugar nenhum, pois acabo de lembrar, “Um dia na face da terra…” do Oséias de Paula.
9º Qual o pior: Morrer ou deixar de viver? Por quê?
Vidal: Escolheria morrer. Até porque não vejo a morte como inimiga, e sim como uma aliada da vida. Há gente cuja existência é de morte. Ou seja, anda, fala, come, canta, mas o caminho que segue não é o da vida. É um defunto ambulante. E isso não tem nada a ver com riqueza ou pobreza. É questão de como se enxerga e entende as coisas ao redor. Quero viver e vivo. Mas se um dia deixar de viver ainda vivo prefiro atravessar o rio e ir pra terceira margem, pois lá o criador me espera de braços abertos. Sim, quem disse que a morte é o fim da vida?
10º O que contas de re-novidades?
Vidal: Moro na Bolívia (estudando), mas como neste semestre tive que ficar em Manaus, aproveitei pra visitar uma igreja da qual fui membro. Acabei reencontrando amigos do passado que estão abrindo uma congregação pentecostal independente numa vila da zona rural de Manaus. Eles me convidaram e eu logo visitei, e gostei tanto que passei a freqüentar com eles. A viagem dura aproximadamente duas horas saindo de canoa (com rabeta) do Rio negro e depois subindo o Rio Tarumã-Mirim até o sítio onde ficamos hospedados no Igarapé do Acácio. E as (re)novidades são muitas. As águas escuras dos rios que são enormes e profundos principalmente agora na cheia, a beleza das matas e praias que margeiam os igarapés, a várzea e lugares inundados, as casas e os tapiris solitários no mundo de floresta. Também a cordialidade, espontaneidade e o aconchego de pequena igreja que não perdeu a inocência. A amizade. Os desafios. A fauna, a flora, os frutos típicos da Amazônia e tantas coisas mais! Domingo passado me encarregaram do sermão (pregação). Falei sobre Graça, Fé e boas obras, baseado na Epístola de São Paulo aos Efésios. Os irmãos gostaram… eu gostei. Estou muito contente.
Felicíssimo pela entrevista deixo a vocês meus parceiros e irmãos no Cristo um grande abraço.
Inté!
Uma teóloga entre nós
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Graças a Deus as mulheres estão ganhando espaço na igreja. Tidas, por muito tempo, como pessoas, possivelmente chamadas apenas para auxiliar, hoje, as mulheres ocupam diversos cargos importantes nas igrejas – algumas delas graus máximos, como: pastoras, bispas e etc.
Uma das provas da “evolução” da posição da mulher na igreja, é a presença crescente de alunas nos bancos das escolas e cursos teológicos – isso mostra que além de participar elas querem estar altamente capacitadas para o serviço.
Um dos nomes em evidência é o de Elaine Rezende, para os mais chegados: Nani. Companheira e amiga do Celebrai, Nani é graduanda em teologia pelo Mackenzie e uma blogueira cristã muito inteligente – tem se destacado com seu blog: Nani e a Teologia.
Como ontem foi o dia Internacional da Mulher – nossos parabéns a todas elas – e hoje é aniversário da Nani (veja o post Nani 3.0), publicamos a entrevista que a Nani concedeu ao Celebrai (começamos a cumprir, portanto, a promessa de publicar uma entrevista por mês).
Desejamos a Nani toda a felicidade do mundo, pedindo a Deus continue dando-lhe sabedoria medianta a iluminação do Espírito, e desde já, reiteremos nossos votos de felicidades (deixados no post referido). Outrossim, esperamos que através desta entrevista todos possam conhecê-la um pouco mais, a fim de amá-la ainda mais.
Sinceramente, eu sei lá! Um belo dia me deu vontade e fiz uma conta no Blogspot. Só sei que gostei disso e hoje encaro o blog como uma práxis cristã pessoal.
A Teologia Cristã – e não esses modismos que vemos por aí – serve como uma âncora. Algo que não nos deixa ir para longe demais de onde deveríamos estar sempre [em Cristo].
Nani: Falta de personalidade. O lado bom de um blog é ser algo pessoal. Você precisa deixar o blog transparecer quem você é e escrever o que você acredita. Blogar só para agradar aos outros ou dar uma de meigo é perda de tempo.
Nani: Eu nem sei se os católicos são tão idólatras como os evangélicos dizem… O que é claro para mim é que os dois lados sentem a necessidade de acreditar em algo próximo [o objeto, a imagem] que seja controlado pelo homem [a oração e as palavras "com poder", o famoso "eu determino"]. Continuamos ainda dentro do sentido de magia e não conseguimos encarar o Reino e a vontade de Deus sem esta “muleta”.

