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#Rabiscando 4
5Passado quase um ano desde o primeiro vídeo, continuamos convencidos de que, sobre ideias, só podemos rabiscar. Não que temamos a verdade, mas porque somente a vida tem a verdade sobre todas as coisas: amanhã ou depois, todo argumento pode ser levado ao chão pela existência. Portanto, não nos interessa deixar a arte de rabiscar, pois nos reconhecemos humanos e precários.
E por ser a vida um acontecimento incontrolável, ousamos recomendar que você permita-se à dúvida. Recomendamos o exercício contínuo, quiçá diário, de confrontar todas as suas certezas com o processo dinâmico de viver.
Um pouco mais sério, mas muito mais objetivo e com qualidade superior aos anteriores, esse rabiscandotem o intuito de anunciar ser extremamente necessário, para que a vida seja leve, a busca pela atualização dos seus conceitos de vida, conteúdos morais, de suas verdades (todo mundo tem uma em especial) e dos seus limites. (mais…)
2leep.comConselhos a um jovem leitor cristão
4Caíram na besteira de me pedir conselhos e dicas de leitura. Besteira maior faço eu agora ao tentar responder.
Querido leitor cristão, sua motivação será sempre a angústia. Para cada livro lido, creia-me, você terá perdido o tempo de outra leitura. Talvez de uma que nunca mais aconteça. Talvez você perca a chance de ler o ‘livro dos seus sonhos’. O tempo corre contra os leitores e o ‘tempo sempre vence’. Mas já que você quer ser um cristão que lê, vamos lá.
Em seguida, rompa as barreiras de papel crepom. Explico: leia de tudo. Sem preconceito. Especialmente, leia fora do ’selo gospel’. Não caia na esparrela de que não há nada de bom fora da igreja. Não aceite para a leitura a distinção equivocada que ronda a música para os cristãos, isto é, não separe sagrado de profano de mundano.
Entendidas essas coisas, fica aqui minha lista em completa incompletude.
Leia Conan Doyle e depois enfrente o Muro de Sartre, exponha-se à crueza de Camus e sorva a insustentável leveza de Kundera, enfrente O homem marcado de Sabino e passei pelos Contos da montanha de Torga, experimente Cem anos de solidão de Garcia Marquez e declame os sonetos de uma vida inteira de Neruda. Leia Agostinho e Simão de Rojas. Leia roteiros e peças de teatro. Vá de O invasor de Marçal de Aquino ao Otelo de Shakespeare. Leia O rei da vela de Nelson Rodrigues e em seguida Seis personagens em busca de um autor de Pirandello.
Já que os livros que você lerá pedem sem o menor pudor o abandono de tantas outras obras, deixo também a minha lista do que não ler.
Nunca leia manuais, só os de produtos eletrônicos ou de remédios para o baixo ventre. Mas afaste-se de livros que tenham numerais no título. Não perca tempo com ‘10 passos’ ou ‘21 regras’ para isso e para aquilo outro. Fuja das ‘maneiras práticas’ e denuncie qualquer título que tenha substantivos ou adjetivos relativos a ‘vitória, prosperidade e conquista. Enfim, fuja da literatura pragmática.
Todavia, não se contente com os meus conselhos, vá além. Vá a sebos e converse com os donos [eles têm preciosidades].
Gaste tempo em feiras, procure pelos livros escondidos nas prateleiras baixas. Peça sem cerimônia para ver a biblioteca de amigos e inimigos.
Nas viagens, leve consigo grana suficiente para comprar livros. Quem se importa de ficar sem almoço tendo adquirido um raro exemplar cheirando a baunilha?
Não tenha preconceitos. Se, ao ler, não gostar, pronto. Tudo bem. Mas leia. Leia de direita e de esquerda, cristãos, ateus, agnósticos e porra-loucas. O inferno seria não ler. A ignorância nem sempre é benção.
Por Tom Fernandes
P.S.: Ctrl+c, Ctrl+v direto do excelente blog, do ótimo blogueiro Tom Fernandes. Trata-se de uma parte da resposta que o autor resolveu dar a alguns, inclusive eu, que questionaram-no sobre “conselhos para escrever e ler bem”.
Lamento de cativeiro
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A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs que esteja ainda pendendo de alguma cruz. Nessa convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-Feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes: ”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito, com maná te alimentei. Preparei-te bela terra; tu, a cruz para o teu rei”.Celebrando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação.
”Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me! Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.
Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o Carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!
Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.
Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe preta para teus fihos.
Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como escravo.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!
Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, de gente pobre mas livre. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.
Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.
E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades, a maioria dos teus grita: é contra a Constituição, é uma injustiça social.
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”
Por: Leonardo Boff
Pensador renomado, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação. Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique (Alemanha) e em Política pela Universidade de Turim (Itália), é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Ps.: Aproveitando o feriado da consciência negra…
Boff é sempre preciso na sua cosmovisão cristã do mundo. Entretanto, o assunto cotas nas universidades carece de uma análise mais profunda e crítica. É inegável o “sofrimento negro” no desenrolar da história, só não sei – ainda – se isso é motivo suficiente para que os ascendentes e herdeiros desse passado sangrento recebam privilégios em universidades, afinal ser negro não é nenhuma deficiência; nossa “cor” não “nos” (me sinto um herdeiro, também) faz menos capazes.
E o Bob chegou à cruz
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Saí do colégio quando o reggae estava começando a fazer a cabeça da mulecada. Curioso, mas vivi quase todos os meus dias na escola sob a influência do hip-hop – nunca fui muito chegado. Nada mais que um dos efeitos da globalização. Hoje, 5 anos longe do colégio vejo o funk tomar conta… (Deus me livre!)Hoje, como já declarei aqui, sou fascinado por MPB, mas não me nego a ouvir reggae – na verdade, desde que eu compreenda, me deleito com o ecleticismo. (exceto axé e funk).
Fiquei feliz em saber da conversão do Bob a Cristo antes de sua morte, mas na verdade o cara já tinha um “pé na cozinha” de Deus, afinal cantou e pensou o amor como poucos. Sendo assim, reproduzo alguns pensamentos do jamaicano mais querido e odiado deste mundo. Com carinho aos amigos e leitores reggaeiros:
Os ventos que as vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que trazem algo
que aprendemos a amar…Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e
sim, aprender a amar o que nos foi dado.Pois tudo aquilo que érealmente nosso,
nunca se vai para sempre…Não ligo que me olhem da cabeça aos pés..porque nunca farão minha cabeça e
nunca chegarão aos meus pés.Se Deus criou as pessoas para amar, e as coisas para cuidar. Por que amamos
as coisas e usamos as pessoas!Os homens pensam que possuem uma mente, mas é a mente que os possui. Há
pessoas que amam o poder, e outras que tem o poder de amar.Não viva para que a sua presença seja notada,mas para que a sua falta seja
sentida…A vida é para quem topa qualquer parada. Não para quem pára em qualquer
topada.Quando você acha q sabe todas as perguntas vem a vida e muda todas as
respostas.Se todos dermos as mãos quem sacara as armas?
Todos caem mas, apenas os fracos continuam no chão…
Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos havera
guerra.
Deus abençoe a todos aqueles que gostam de reggae e fumam maconha, para que deixem de se alucinar com a maconha e comecem a viver a vida de olhos bem abertos aos pés da cruz de Cristo.

